segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fim do Fim do Mundo








*Segue o texto que foi enviado ao jornal Cruzeiro do Sul, e veiculado no domingo.
Aqui, sem cortes e edição.


Punta Arenas, sábado, 21 de novembro

Começando no fim

Tem sol e calor de mais de 30 graus na maioria das cidades brasileiras, inclusive Sorocaba. Aqui, de onde escrevo, Punta Arenas, no Chile, uma manta de nuvens cobre o céu da última cidade do continente americano. Sim, estou no local conhecido como o "Fim da Terra", onde os oceanos Atlântico e Pacífico se encontram e onde começa a escurecer por volta das 22h. Daqui, parto amanhã (segunda-feira) para a Antártida, o continente gelado e o único desabitado do planeta, que pode apenas ser utilizado para fins de pesquisas científicas e que, desde 1984 o Brasil mantém uma base militar, a Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, a 130 quilómetros da Península Antártica, na Baía do Almirantado. O Brasil e mais 30 países fazem parte de um acordo - chamado Tratado Antártico - que permite a exploração científica. Além do Brasil, Equador, Argentina e Chile também fazem parte do tratado.
Para os participantes da expedição no gelo que parte amanhã, a imerssão começa em Punta Arenas, a cidade mais Austral do mundo.

Finis Terrae

É primavera e as temperaturas mínimas variaram esses dias entre 1 e 5 graus centígrados mas os locais estão felizes com o "bom tempo". Na semana anterior, a neve tomou a cidade de casas coloridas e de arquitetura européia, onde poucas são as construções com mais de três andares e os estabelecimentos comerciais que mantém as portas abertas, devido ao frio constante.
De inconstante, as condições climáticas mutantes: sol, chuvisco, vento, neve e outros eventos meteorológicos se atropelam no dia que "engole" despudoradamente a noite que, preguiçosa, desponta quando muitos brasileiros já estão dormindo e confunde nosso relógio biológico. Às 20h30 de ontem aqui -também em horário de verão mas com um fuso de 1h a menos do que Brasília - a claridade era proporcional às 15h em Sorocaba.
Também amanhece mais cedo, quando o avião da empresa chilena LAN - a maior companhia aérea do país - aterrisou no aeroporto de Punta Arenas, na madrugada de sexta-feira, era possível ver o sol "apartando" a disputa entre o Atlântico e o Pacífico, no Estreito de Magalhães, onde dá-se o encontro dos dois oceanos. O lugar recebeu esse nome pois, segundo a história, o navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro europeu a navegar por esses mares.
Enquanto durou o "tempo bom", a comunidade pôde realizar, na sexta-feira, uma feira sobre a cultura local. Com exposições de artesanato, comidas típicas e danças folclóricas, o evento mobilizou uns poucos locais que resistiram o frio de 5 graus e os chuviscos. As músicas e as danças executadas pelas crianças lembram muito a "nossa" quadrilha, também exportada da Europa. Aqui em Punta Arenas, é forte o traço da herança européia nos adolescentes: nas roupas (meninas de gravatas, coletes, saias e meias), nos cortes de cabelo e nas músicas. Os jovens com mais idade, no entanto, parecem querer recuperar heranças da latinidade e não "escondem" isso nos trajes, no modo de se divertir e nas conversas que consegui "engatar" com meu portunhol sofrível e meu inglês de férias.
As mulheres mais velhas, em sua maioria, lembram Mercedes Sosa (cantora e ativista política argentina falecida no mês passado): corpulentas, os cabelos negros na altura dos ombros e os olhos fortes que chegam a ser tristes; ora mareados, ora arenosos, como a própria cidade, que foi batizada como Punta Arenas pois além de ser hoje uma zona franca portuária, quando a descobriram, chamou a atenção por ser arenosa.
A natureza austral, deste local conhecido como a Patagônia Chilena não enche os olhos pela exuberância mas pelo contraste. O branco, cinza e azul são constantemente "quebrados" pelo vermelho, amarelo e verde e outras cores quentes que não apenas decoram telhados e interiores mas mantém resquícios de latinidade no lugar onde a Terra acaba.
E a cidade flui calma, em contraponto ao mar que espera quem irá partir segunda-feira, a bordo de um navio polar. Nas ruas, os carros andam em baixa velocidade e, mesmo que a sinalização esteja indicando passagem de veículos, aguardam os pedestres que, por mais que caminhem um pouco mais, dificilmente se arriscam a atravessar em outro local que não a faixa de pedestres.

Nem igual nem diferente

Há uma linha tênua que separa o igual do diferente chamada aproximação. Aqui, em outro País, quase outro continente, outra língua, costumes e cultura, tudo parece muito mais distante até que dê-se o primeiro Hola!, o primeiro sorriso ou a primeira folheada nos "periódicos" (jornais) locais.
O maior jornal local, com 48 páginas e que não tráz o total de tiragem, chamado La Prensa, trouxe de manchete, no dia 20, uma situação parecida com a que os sorocabanos passaram há poucos meses, resultado de um trabalho de investigação da reportagem do Cruzeiro do Sul. "Acusan a secretario de la Corporación por asignare bono". Em reportagem de Paola Abarzúa, uma denúncia de que o secretario de la Corporación Municipal, Hermes Hein Bozic assinou um benefício extra de aproximadamente 1,5 milhão de pesos chilenos para ele e mais quatro funcionários da secretaria - reposnável pela educação e saúde da comunidade - como remuneração de um trabalho de auditoria que realizaram em uma entidade.
Além do escândalo envolvendo o secretário, o jornal tráz ainda a preocupação com a recuperação das aulas devido a paralisação nos tempos mais dramáticos da pandemia da gripe Influenza A H1N1 (gripe suína). O segundo jornal local chama-se Pinguino, em referência a ave símbolo do continente Antártico onde, amanhã, se as condições meteorológicas permitirem, estaremos embarcando eu e mais cinco integrantes da imprensa no Navio de Pesquisas Oceanográficas (Napoc) Ary Rongel. Os outros seis integrantes que formam a "trupe" da imprensa deverão se juntar ao grupo mais tarde, e irão, provavelmente, de carona com um voo de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).
O que nos aguarda, além dos pinguins, focas, skuas e krill's é uma travessia que pode durar de três a quatro dias e uma temperatura de quatro graus negativo, com sensação térmica de 20 graus negativos, por causa dos ventos que já nos assola em Punta Arenas, a cidade que vive em movimento pelo "sopro" atmosférico.
A tripulação de oficiais da Marinha do Brasil também já se encontram em Punta Arenas, dentre eles, um sorocabano em sua segunda missão acompanhando o Programa Antártico Brasileiro (Proantar). O oficial Eugênio, há 28 anos na Marinha é mergulhador e no próximo "Diário de Bordo", ele irá contar sobre a experiência no continente gelado e da saudade de Sorocaba, onde está sua família. Provavelmente, no próximo contato, já estejamos em alto-mar.
Acabo de escrever o texto e , de repente, neva em Punta Arenas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um dia ainda sou notícia

chttp://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=39&id=239584

De como corar dias gris



Daqui, de onde me encosto em uma poltrona tão confortável quanto colo de mãe, avisto um mar que ainda não preciso decifrar se é Atlântico ou Pacífico. Se maleavéis, os telhados das casas rasteiras de Punta formariam ondas multicoloridas.
A exuberância aqui, atende mais pela simplicidade do que pela ostenção. É como se tivessem deixado à natureza a incumbência da beleza e a eles, o legado sutil de caber no cenário, sem maiores rompantes ou ostentação megalomaníaca de progresso: a cidade cabe na palma do olho, é só piscar para morar dentro!

PS* 8 graus centígrados

Do fim para o início



"O fim da América (continente)". Deste modo nada módico, é que os nativos iniciam a prosa sobre a cidade. No meu caso, no táxi, logo nas primeiras horas. Ainda pedi para o motorista parar, para eu poder registrar essa imagem do dia se "assanhando", sob o Estreito de Magalhães, uma passagem navegável de aproximadamente 600 quilómetros ao sul da América do Sul, é a maior e mais importante passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
O lugar recebeu esse nome pois o primeiro europeu a navegá-lo, reza a lenda, foi o navegador portuga, Fernão de Magalhães.

E a Patagonia Chilena ainda me recebeu com um frio de 1 grau centígrado,muito diferente do clima da Capital, Santiago, onde por volta das 10h, fazia 20 graus.

Certo, notaram que comecei do fim e ainda nao falei da viagem? Mas me redimo:sai de Sampa suando até no cérebro por conta dos quase 35 graus. Passei 3h em Cumbica fazendo nada com aquelas algumas coisas que nos restam em locais empregnados pelas plaquinhas antipáticas que o Serra espalhou pelos locais onde sofremos maior tensao,como Aeroporto, Trabalho, Buteco...enfim!
Na maior parte do tempo, fiz reconhecimento das pessoas, pela roupa, atitude e otras cositas mas, tentando adivinhar seu País de origem: Aeroporto Internacional é, realmente, uma fauna!

O Voo atrasou um pouco, devido alguns sistemas que estavam vindo dessas Terras, e levaram umas nuvens nada camaradas para o caminho. Essa frente, nos fez passar por alguns pontos de turbulencia mas nada para acabar com as unhas. Cheguei em Santiago minutos antes das 22h, com um espanhol sofrível, sono e uma vontade tamanha de fumar.

Para acessar o local de onde, 2h30 depois partiria meu voo até Punta Arenas, precisava acessar outro lado da rua e pegar um elevador que, acreditem, tinha hora para parar de funcionar. E era quase a tal da hora.

Com um carregamento parecido de quem se exila por alguns anos em ambiente inóspito, sai tresloucada puxando um carrinho de bagagens manco. Quando enfim encontrei o guiche da LAN - a maior empresa aérea chilena -, descobri, na hora do Check-in, que estávamos, eu, meu sono, minha vontade de fumar e menos uma mala.
Antes do pane, fiz cara de: "Shi, fudeu!" e parti em disparada atrás da minha preciosa.

Nem foi preciso testar meu folego de atleta e logo vejo um "tiozinho" perguntando a todo mundo se a tal mala pertencia a algum deles. Com meu espanhol americanizado qualquer coisa tabajara, tentei explicar que me pertencia, a tomei nos bracos e a chamei de minha, e dei por finalizada minhas peripécias no Aeroporto de Santiago.

Fui mofar por uma hora na area de embarque, ouvindo Chico que é quem me entende, e me consola.

Sai de Santiago 0h30 do dia 20. Nem meus olhos rasgados e meu cabelo devidamente chapado conseguiam me fazer parecer um deles. Incrível como os chilenos se parecem, quer dizer, acho que só no Brasil parecemos qualquer coisa e todo mundo, pois os demais povos, tem uma carecterística comum - menos nós, para variar.
Aí vim sossegadamente na "janelinha°, e as demais poltronas folgadas, ouvindo rádio local.

Sai de Santiago ao som de música clássica, pois se o tal Pop no Brasil já é chorável, preferi nao me arriscar muito em local alheio. E assim, mais 3h de aviao após e sem entender patavinas das recomendacoes a bordo, aterrisei em solos "Austrais", próximo das 4h daqui(5h no Brasil).

Seria tudo lindo: cidade amanhecendo, frio cortando, povo hospitaleiro, arquitetura colorida, hotel aconchegante, cama gigante, banheira quente e cerveza incorpada; nao fosseo MERO detalhe: nao é permitido fumar no hotel.
Antonces,bora para a rua!

Ps*: A pontuacao está sofrível e algumas palavras estao mancas,rs.